segunda-feira, 9 de julho de 2012
Sê feliz
sexta-feira, 9 de março de 2012
O meu mais sincero: Amo-te
Depois de mais uma má notícia chega aquele momento em que o esforço enorme que fazes para continuar com a fachada de que as coisas ainda podem voltar ao que eram, descai completamente. Leva com ele lágrimas e gritos mudos como mostra da derrota de um cérebro que deixou de fazer um esforço para tentar inventar novas desculpas e novas razões para fazer acreditar que ainda há uma alternativa que eu queira ouvir neste momento.
Perdi.
Outra vez vou ter que dizer que perdi. (Outra vez!...) Ainda que ela consiga vencer a luta que trava agora para ter a sua propria vida de volta, a medicina não aceita que eu receba de volta a minha amiga. A minha amiga que um dia me escreveu a dizer que me invejava e mesmo tempo sentia orgulho em mim, essa que eu nunca cheguei a dizer que eu sinto imenso orgulho das decições que ela tomou na vida e na mulher linda que se tornou, essa mesmo!, essa eu nunca vou ter de volta. Aquela amiga que eu partilhava muito mais do que o seu gosto para música e filmes, aquela com que partilhei anos e anos da minha vida, aquela a quem eu contei segredos e da qual eu ouvi multiplas barbaridades das quais me ria, aquela mesmo!... Essa. Essa eu sei agora, porque a medicina e as estatísticas se negam a fazer milagres, que nunca mais vou ter.
E eu só espero conseguir aprender a amar esta nova com a mesma força com que amei e amo aquela que com quem cresci.
Orgulho-me de ti amiga.
sexta-feira, 2 de março de 2012
Com o devido respeito: merda, foda-se, caralho.
Porque é que um segundo pode mudar o rumo de tudo? Uma distração pode fazer com que vejas o mundo de pantanas e um dia quente como verão te saiba a gélido? Porque é que me dizem que a única coisa que se pode fazer agora é rezar quando isso para mim só significa que as pessoas estão tão desesperadas e com a esperança tão ténua que me pedem para fazer a coisa em que eu menos acredito? Porque é que parece que amanhã vai ser diferente, que toda a gente só pode estar a mentir e a exagerar no que são apenas uns aranhões na cara? Porque é que até eu começo a achar que a única coisa que algum crente pode fazer agora é rezar? Eu cá vou esperar... esperar por receber um aviso no telemovel a dizer que a mensagem que mandei a dizer “eu gosto muito de ti” foi entregue.
quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012
Como Fernando Pessoa já sabia, é só cansaço.
Engano-me com coisas efémeras. Com o prazer adicional de ter aquilo que se quer de maneira rápida, ainda que mais rapidamente ainda se deixe de o ter. É como sentir imensa sede mas só poder beber um gole de água aqui e ali: a sede nunca fica realmente saciada (mas também não se nega a possibilidade de enganar a fome...).
E com a fome constante vem o cansaço. Cansaço de nada. Cansaço de tudo. Cansaço de não saber exactamente do que é que se está à espera para fazer e mudar alguma coisa. Cansaço que o sangue corra demasiado depressa mas nunca faça com que hormonas suficientes digam ao cérebro o que todo o corpo já sente.
Cansaço do coração ser cego e surdo, mas nunca mais ficar mudo. É só cansaço.
quinta-feira, 29 de dezembro de 2011
Bilhete de partida. Destino: 2012
Toda a gente fala que para haver uma real evolução tem que se olhar para o futuro. Que só uma corrida fatigante e desalmada em direcção a um objectivo definido no desconhecido pode criar o divertimento oportuno capaz de abrir uma grande porta no futuro.
Pois eu quero começar a correr já!
Estou farta de olhar para as portas do passado e esperar que elas se voltem a abrir. Estou farta de correr novamente para oportunidades que já vivi e já deram errado, e a única coisa que as coloca novamente na mira do meu futuro é o facto de ainda haver uma impotente e misera esperança que possam dar certo. (Tudo isto seja, talvez, pela minha vontade de provar a mim mesma que não perdi tempo naquelas tentativas passadas…).
Verdade seja dita que eu não costumo remoer nos erros dos outros, mas nos meus… - como diria a minha avó, ‘Deus nos livre’ (e se cada vez que ela repetisse isso desse resultado esperado já não haveria catástrofes naturais nem falta de dinheiro para ninguém…). Tenho uma tendência quase doentia de meter os meus erros como uma imaculada colecção no meu museu. Isto para que saiba sempre todos os passos mal dados em que apostei e repense constante e incessantemente em razões que justificassem tão infantil escolha. (Há quem lhe chame masoquismo, disseram-me um dia).
Estou pronta agora para declarar que me senti obrigada a repensar na minha maneira de viver as coisas passadas assim que notei que uma das portas que eu mais esperava que voltasse a abrir fechou completamente. Declaro também que nunca esteve realmente aberta. Esteve sempre meio aberta meio fechada. Na realidade aquela porta estava sempre meio aberta para que se visse o que estava lá dentro e se desejasse que não estivesse sempre meio fechada o suficiente para que nenhum corpo pudesse entrar (pelo menos o meu, mas normalmente existem mais portas para se ter acesso ao mesmo).
Algumas portas do passado voltaram a abrir.
Algumas portas eu já voltei a fechar.
E agora chega o momento em que deixo de ter medo de abrir novas portas que nunca conheci. O momento em que deixo de ter medo do modernismo que é atirar-me de cabeça para colorido desconhecido do futuro deixando para trás o poeirento passado que conheço tão bem que esqueço que é escuro e que as cores que vejo são as que eu sei que outrora elas foram, são parte da minha memória visual tão revisitada.
Pena é que, para apostar assim, eu tenha que me desligar de memórias, de papeis rabiscados ao som de uma canção, de noites de chuva, de sorrisos, de sonhos, de lágrimas que um dia caíram no mesmo sentido ainda que em localizações geográficas diametralmente opostas, de mim de franja e cabelo liso, de mim. Ou do que eu achava que eu era.
segunda-feira, 19 de dezembro de 2011
Chamo-lhe Segredo
Fica aqui um segredo (e chamo lhe segredo porque não me parece que alguma vez diga a quem diz respeito): as coisas não são quase nunca como se dizem, ou porque se dizem com a certeza que são verdade e depois as circunstâncias mudam, ou porque se dizem sabendo que não são verdade mas que será melhor ouvi-las assim. Mas sentem-se sempre da mesma maneira. Porque custa sempre dizer uma dessas “verdades” quando está por trás outra questão que te leva a querer evitar dizer mais verdades do que aqueles que queres que oiçam.
sexta-feira, 9 de setembro de 2011
Excremento
Há dias em que parece que a única coisa que te apetece é deitar tudo cá para fora, falar, dizer mal, chorar, arrotar emoções, vomitar ódios e escarrar maus-amores. Todo o excremento acumulado por vivências e sentimentos passados é insensatamente empurrado para aquele grito.
Esquecemos que de nada isso serve; apercebemo-nos que nada nos vale gritar quando nem o coração ouve nem o cérebro pára de pensar.
Somos seres mesmo estranhos, nós, humanos.
domingo, 3 de julho de 2011
São coisas
O quanto eu gostava de dizer que aquela lágrima será a última. (E volto a pedir o mesmo desejo na próxima lágrima, e na próxima e na próxima...).
É engraçado como o Universo parece que nos dá sempre alguns sinais mas somos sempre demasiado humanos - e com isto quero dizer burros e cegos! - para entender o que, passado um grande murro na barriga, não podemos negar (ou dois, ou três, ou quatro… ou quantos forem necessários). Para mim foi daquela vez em que do nada te vejo tão perto e tão longe. Num minuto te vejo apenas duas linhas de comboios à minha frente, aceno, chega o teu comboio, entras, o teu comboio parte, entretanto o meu chegou, corro até ao mesmo sitio onde tu estavas para entrar no meu comboio que parte na linha ao lado mas exactamente para o lado contrário. Tudo o que o universo condensou num minuto eu demorei muitos mais a engolir.
E sabes que mais? As viagens de comboio agora já não me parecem tão longas.
domingo, 16 de janeiro de 2011
Que (a)deus?
Que deus é este que tanto falam e idolatram, que 3 dias depois voltou à Terra, para mais tarde assinar sem misericórdia uma sentença de morte a uma criança de 20 anos?
"Se soubessem o que sinto desde mundo, não veriam mais do que ódio, não veriam mais do que rancor, não veriam mais do que uma grande e marcada desilusão. Desilusão por saber que dei de tudo; e quando dava 10 de mim me era retirado 20. Foi assim que continuei invariavelmente a caminhar para um abismo que nunca imaginei tão escuro….
Sorte daqueles que nasceram em berço de ouro, que não sabem o que lhes é ser retirado nada e não sabem o que lhes é ser retirado tudo. Sorte daqueles que não viram pessoas a morrer ao colo para depois ter, nesse mesmo colo, um papel escrito com uma espécie de passaporte de visita aos há muito desaparecidos. Uma visita sem data marcada e sem regresso.
Mas datas definem-se quando se quer (e enquanto ainda se pode)."
Cancerígenos pensamentos que consomem a alma, enquanto o corpo se autodestrói sem perguntar se se quer sacrificar por Aquele que nunca experimentou o sabor amargo da mortalidade humana.
E ainda há quem diga de boca cheia que é justo… Que (a)deus?
quinta-feira, 30 de dezembro de 2010
Balança Comigo
Sinto que tenho o peso da vida de outrem numa mão e a verdade da minha vida noutra. Toda essa balança desproporcionada está a ceder e eu confesso que não sei o que faça com ela ou para que lado ela vai tender. Se tiver realmente ao meu alcance mudar o que tu queres tomar como teu, sendo que eu sei o que está em jogo, então continuarei na mesma incerteza de não saber o que fazer. Não quero condenar nada, mas os pesadelos assolam-me tentando espicaçar-me a escolher.
- Por favor, tira a corda que teimas em colocar ao pescoço. Ainda que não te importes com isso, ela está a começar a apertar-te e já me estrangula a mim também.
- Por favor, não voltes a apontar essa arma que tanto atira na tua direcção como na minha.
- Por favor, não voltes a deixar de respirar por muito tempo que me sinto a perder o folgo contigo.
- Por favor, não te voltes.
Não te voltes para que não vejas a minha cara de terror enquanto avanças dizendo que pelo menos esta será a tua escolha (nem que seja a última). Não me digas que agora te posso chamar mais vezes egoísta porque até não deixo de ter razão. Contraria-me! Contraria-me como fazes sempre!... Contraria todas as vezes que precisares, mas apenas não numa: não o faças!
É que eu acho que há algo que ainda não entendeste: os teus problemas já não te pertencem tão só e exclusivamente a ti e a tua sombra tem traços que já são mais meus do que teus. Tu cais e vou contigo; e, pelo contrário, se te elevares um bocado, arrastas-me contigo para uma vertical que todos anseiam. E eu não entendo porque chamam a isto amor quando dizem que só se pode amar uma pessoa verdadeiramente. Eu amo muitas. Amo muitas e muita coisa e se não é a isso que chamam amor, eu trato-o assim. Se tiver, para isso, de o identificar com maiúscula, até com nome próprio eu o trato que não quero ofender ninguém. (Se podem chamar Gisela a uma carrinha, eu posso chamar a um sentimento Amor, seja lá o que ele for). Assim sendo, Amor fez com que eu te dissesse um dia:
- Não o faças!
*
Não me vou desculpar se te deixar cair. (Mas a balança pesa demais.)
quinta-feira, 18 de novembro de 2010
E se não houver Cavalo de Tróia?
Chove lá fora e ainda a água não molhou a terra e já os meus pensamentos divagam. Talvez a chuva não esteja para lá da minha porta, talvez haja uma tempestade mais perto de mim do que a minha mão da minha testa. (E dói-me a cabeça, dói-me tanto a cabeça).
Relembro (…)
Relembro agora as coisas que nunca tive e chove.
Relembro agora as coisas que tive e faz saudade.
(Que saudade!...).
Saudade da altura em que sentia que te podia dizer qualquer coisa; saudade do dia em que sentia que podia chorar ao teu lado e explicar-te o que estava a acontecer comigo, que houve um dia em que, sentada ao colo dele lhe puxei um caracol da cabeça e lhe disse que o adorava antes que o caracol voltasse a enrolar para a sua nuca. E ele, nesse dia como em tantos outros, retribuiu com um olhar luminoso e um sorriso que parava toda e qualquer chuva. Agora são só lembranças daquelas que não tento esquecer por serem tão belas de serem relembradas, mas tão cruéis por não poderem ser revividas.
Mãe, tenho medo que chova e tenho medo que faça sol. Agora tenho medo que faça sol porque já sei que o sol não brilha para sempre e que ele se apaga e fica enublado e chove e eclipsa. Mãe, e se não houver Cavalo de Tróia que tape o Sol mal eu adormeça? E se eu tiver medo de abrir a porta ao Cavalo por o achar tão belo, por ter medo de o perder ou dele se tornar outra coisa completamente diferente? Mãe, e se não houver Cavalo de Tróia e eu agora, com medo, deixar o cavalo fugir?
*
‘Where did I go wrong, I lost a friend
Somewhere along in the bitterness
I would have stayed up with you all night
Had I known how to save a life’
- The Fray
sexta-feira, 28 de maio de 2010
Norte - Sul - Este - Oeste
Tem a coragem de subir a um monte alto e gritar. Se queres um conselho: grita alto, grita muito alto já que um grito nunca é alto demais se atingir os decibéis certos (e tu já definiste bem quais são os teus).
Agora tem a decência de descer desse monte alto onde te tens mantido e vê como o rio corre. Por mais que aches que consegues, a água corre sempre num único sentido e tu não a podes mudar. Ela flui e insensata e tresloucadamente vai morrer à foz. E é essa mesmo a maior inutilidade da força humana: não conseguir mudar o rumo desse belo e cruel rio que, satisfazendo o seu prazer egoísta, se enrola e desenrola, finta e embate contra as pedras afiadas ainda não polidas pela própria água. O que nele passa, passou, e a força que fazes para te agarrar e o deixar fluir sozinho é mágica e linda mas apenas serve para atrasar o inevitável; mas agarra-te com força! (Lutar nunca foi insensato mesmo quando sabes que pouco altera, se lutares com força e pelo que realmente acreditas!).
Agora vai à diminuta vila que fica a meio do monte. Nota aí que a quantidade pode nada ter que ver com a qualidade principalmente quando há uma união eminente na qualidade do que é nosso e assim fica até que o grito se esgota e o rio vá desfalecer à foz.
Mantêm-te aí enquanto puderes!
sexta-feira, 7 de maio de 2010
Vinho
Eu cheiro a vinho sem ter bebido uma pinga alcoólica; embriaguei-me sem tocar em nada e o cheiro persiste mesmo depois de esfregar violentamente a minha pele. Passo constantemente a cara por água gelada, já não sei se para tirar o cheiro se para tentar entender se tal imenso fedor pode vir mesmo de mim.
Estar assim não é minimamente agradável quando o vinho é rasca e com um cheiro odioso fixado a quem nunca quis ficar assim. Estar assim só afasta quem não devia conseguir sentir o cheiro nojento a vinho podre já que o que fica demasiado tempo sem ser desejado sempre se estraga e fede.
Não me quero deixar beber.
sábado, 24 de abril de 2010
Ausente
Larguei por não sentir mais onde agarrar. Por puxar com tanta força que deixei de sentir tudo e qualquer coisa onde levemente passe a mão (também porque de outra maneira ela não podia passar de tão dorida que está de lutar pela vontade do órgão mais egoísta do corpo – o coração).
Assim não vale a pena.
Parto agora com medo de avançar por chão frio e desconhecido mas tendo que o fazer porque nada é mais masoquista do que continuar onde não se pode mudar nada e nada do que existe nos agrada. Avanço numa outra direcção quando a anterior já não me diz nada, ou quando me diz tanto que me encandeia as emoções ludibriando os meus sentidos e sentimentos e querendo-os todos para si, qual egoísmo de quem quer tudo para nada distribuir.
quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010
Religiosamente Mentimos
A parte boa da mentira é reinventar a verdade. Mas a melhor parte da mentira é não ser verdade. Porque se soubesses o quanto dói uma verdade contar-me-ias, baixinho e ao meu ouvido, milhares de mentiras. E eu recordaria cada ‘adoro-te’, ‘quero-te comigo’ e ‘nunca vou deixar que nada de mal de aconteça’ como verdade. Sim, porque a mentira é uma boa verdade quando, com muita força de vontade e imaginação, a queremos como tal (e eu quero!).
Se não me queres mentir, afasta-te. As tuas verdades são demasiado duras; as tuas verdades são demasiado negras para cobrir o dia alegre que eu me esforcei por pintar com as cores mais bonitas e falsas que encontrei.
Mente. Mente e faz da mentira a tua própria verdade para que ela possa recriar os teus dias e afastar os teus medos.
(Afinal de contas, não foi para isso que criaram a religião?)
segunda-feira, 25 de janeiro de 2010
Desejo que nunca coloques Botox
Apercebi-me que não é à toa que se fala numa ligação, pouco científica, entre rugas e sabedoria quando o teu rosto rasgado de linhas enterradas como as tuas ideias velhas esboçou um pequeno riso. ‘Gastas demasiada energia em explicar tudo e a tentar passar o teu conhecimento e ideias aos outros. Às vezes é bom deixar as pessoas caírem em vez de tentares explicar que estão a prestes a tropeçar’ disseste. Tentei fazer-te compreender que gostava demasiado dessas pessoas de que falavas para deixar que elas caíssem e se magoassem. Que iria fazer tudo o que pudesse para não ter que as levantar depois da queda e para, em vez disso, tentar impedir que houvesse sequer a possibilidade de ficarem com um mínimo de mazelas. Gesticulei que não me sentia capaz de desistir de ninguém de quem gostava. (Antes desistir de mim…).
Calmamente concluíste com um seco ‘tens razão’. Tinha?! E para mim a questão agora nem era tanto se tinha ou não razão, era desde quando é que admitias que não eras tu, meu velho teimoso, que tinhas a razão do teu lado poeirento. ‘Quis que me dissesses isso mesmo. Quis que me contradissesses como, e não apelando à tua originalidade de pessoa nova e com demasiadas ideias, o fazes sempre. Fi-lo para que tu mesmo pudesses ouvir porque é que não podes desistir. E ao contrário do que disseste, nem mesmo de ti; se desistires de ti não terás força nem a mínima possibilidade de lutar pelos outros. Às vezes exteriorizar ideias, razões e sentimentos, torna-os mais reais, e era isso que eu queria que acontecesse para que te ouvisses a ti mesma. (Devias fazê-lo mais vezes minha pequena). Se não o fizesse por esta razão, fazia-o simplesmente para te ouvir a debitar argumentos para me fazer concordar com a tua opinião de novata. Agora não te habitues que concordar contigo não tem tanta piada!’. Revirei os olhos e disse apenas que eras um velho vingativo. Tu sorriste e eu odiei ver que, mais uma vez, e quando ironicamente era eu que tinha razão, acabara por concordar contigo.
*
'É sempre preciso criar pó para deixar polido’
mushroom’zeni
(23.Janeiro.2010)
terça-feira, 1 de dezembro de 2009
Enquanto as Paredes Choram
As paredes rachadas pareciam emanar um cheiro a podridão e chorar de tristeza de tamanha desumanidade que ali se vivia. O ar era húmido e estranhamente pesado. Tão pesado era o ambiente por ali que os tectos curvavam teimando em aguentar o peso de muitas chuvadas. Esses tectos ameaçavam ceder e o ângulo vertiginoso que faziam deixava bem claro o esforço que aplicavam para declinar essa hipótese. Mesmo velha e pequeníssima, a casa alojava uma família aparentemente normalíssima, feliz e monetariamente segura. Feliz era provavelmente; não me lembro de conhecer muitas mais famílias tão unidas como aquela. (E como era bonito ver o irmão, meu amigo, a cuidar da irmã mais pequena, enquanto era acarinhado pelas mais velhas!). Uma família monetariamente segura é que era, somente, uma fachada criada com roupas de marca, telemóveis caros, vários computadores, relógios… Manter essa fachada custava-lhes e conforto de chegar a uma casa com o saneamento completo e quartos que não fizessem transparecer o tempo que se fazia na rua; mas nunca lhes fizera perder a vontade de mudar esta situação.
Eu encontrava-me chocada porque esta não era, de maneira nenhuma, a situação que eu esperava encontrar na casa do meu colega que há anos me acompanhava na vanguarda da tecnologia informática.
- Obrigada por confiares em mim. – disse-lhe, tentando esconder o facto dos meus olhos estarem a ver agora apenas metade do que via antes devido às lágrimas que se acumulavam nos meus olhos mas que eu teimava em não deixar partir. (Deixei que as paredes húmidas, continuassem a chorar por mim, como se notava que faziam há décadas.)
Como eu racionalmente já esperava, ele incomodou-se com o facto de poder perder o pouco que ele e a família ainda mantinham para além do amor incondicional, a fachada.
- Por favor, não contes a ninguém.
- Não me parece justo que tenham que fazer um esforço tão grande para esconderem o que se passa na vossa família.
- Não nos parecia justo era termos que ser julgados por não termos o mesmo do que as pessoas que moram no outro lado da cidade.
- Mas isso faz com que tenham que renunciar a tanto!...
Ele manteve-se em silêncio, olhou em volta e apoderou-se do meu ombro. Foi ele que primeiro chorou e as lágrimas que dele caiam pareciam balas sobre mim. Dei-me ao luxo de chorar também e apesar de, a certa altura, as lágrimas de ambos se terem juntado numa queda vertiginosa para o chão rachado, eu conseguia perfeitamente distinguir quais eram as dele. As lágrimas daquele meu novo herói faziam um barulho estrondoso assim que chegavam ao chão ou me encharcavam tal era o grito que ele tinha acumulado durante anos.
*
‘A verdadeira riqueza mede-se pela soma
da qualidade e quantidade de amor que se conquistou’
mushroom’zeni
(01.Dezembro.2009)
quinta-feira, 19 de novembro de 2009
Eco da Concha
Era tarde demais para voltar para trás e tarde demais para pensar nas consequências que teria que enfrentar se alguém lá em casa descobrisse que não estava onde era suposto (a verdade é que já há muito tinha saído de onde era suposto sem ter mexido um único pé).
O carro não conseguia, por mais que acelerasses, andar mais rápido que do a minha imaginação. E apesar de teres tido a audácia de tentar fazer-me conhecer as mudanças do carro, tal esforço teve um só resultado: de mudanças conheço tanto quanto conhecia antes, ou seja, pouco ou nada; no entanto, passei a conhecer bem melhor as tuas mãos. Depois, talvez por mecanismos de acção - reacção dos mais estúpidos e inúteis nos seres humanos, deixaste-me literalmente sem graça. (Tenho noção, por isso, que disse umas quantas barbaridades durante o caminho, nunca por ti denunciadas).
O cheiro a maresia misturava-se agora com o teu perfume e as bocas e comentários maldosos que nós fazíamos um ao outro rompiam mar dentro e inundavam esse tão poderoso oceano. Apenas uma coisa parecia errada: o céu estava completamente tapado por nuvens negras e escondia os minúsculos pontos de luz de enorme carga romântica. Ainda assim, caminhámos. Caminhávamos e falávamos. Falávamos e aproximávamo-nos. No entanto, parecia sempre que algo inexplicável nos impedia de avançar, como que se uma barreira transparente se edificasse entre nós e nos bloqueasse alguns movimentos.
Decidimos sentir o toque da areia nos nossos pés e foi quando nos sentámos e olhámos o céu que descobrimos que todo o imenso tecto que testemunhava aquele momento estava coberto de maravilhosos e reluzentes pontos de luz esbranquiçada. Eram agora esses pontinhos que contrastavam perfeitamente com o sublime preto que os abraçava e que completavam a música harmoniosa que servia de pano de fundo àquele momento, o som do mar.
- Afinal sempre consegui fazer com que o céu ficasse como tu querias – disse ele, enquanto sorria e contemplava o céu.
Já nada parecia errado. Até o céu parecia querer aquele momento. E, naquela altura, todos os sons, cheiros e cores pareciam estar unidos numa dança harmoniosa em volta dos nossos corpos estendidos na areia. Nada parecia poder ser diferente, questionável ou desnecessário. Era tudo perfeito.
*
(Acho que foi só quando cheguei a casa que me apercebi da possibilidade do céu, por mais deuses que pudesse conter e por mais poderosos e honestos que esses pudessem ser, me estar a mentir.)
*
Tentava desmembrar agora todos os teus gestos e palavras à procura do que era sincero e real, tentando reconhecer distintamente o que era apenas ilusão e mentira criada para aproveitares o momento da melhor maneira. Quanto mais avaliava o que se tinha passado, mais duvidava das tuas reais intenções. O céu podia realmente ter mascarado, na altura, aquele momento, mas eu, do meu quarto, já não o via e, por isso, já não estava (supus) sob o efeito das suas manhas!
Foi quando viraste a cara, naquele dia, arrastando o teu sorriso do céu estrelado para mim, que viste mais do que os meus olhos brilhastes; viste a mulher que queria agora, de ti, mais do que o teu lindo sorriso. Os teus olhos deixaram de sorrir e focaram a minha boca. Avançaste sem medo. Entendo agora que não o fizeste porque sabias o que querias, mas sim porque sabias exactamente o que fazer. O teu gesto não estava preenchido com desejo, estava impregnado com experiência e sabedoria de quem sabe que não vai ser rejeitado. Mecanicamente fizeste aquilo que sabias que devias, na altura propícia ao acontecimento. Programaste-me perfeitamente para obedecer aos teus estímulos e até o céu enganaste. Como marioneta envenenada, eu ia correspondendo … até que o telemóvel tocou. Já estava atrasada.
Quando nos despedimos no teu carro, tu sabias que eu ia ter que viajar em breve e que ia lá ficar uma semana ou mais. Tentei persuadir-te a passares por lá um dia, já que sabia que tinhas liberdade e recursos suficientes para o fazeres. Em vez de te mostrares entusiasmado com a ideia ou de me dares uma desculpa para não o fazeres, limitaste-te a dizer o quanto era “complicado”.
*
Da varanda do meu apartamento conseguia ouvir o mar a ir de encontro às pedras; depois de matar a sede às rochas afastava-se, voltando, mais tarde, a fazer o mesmo. Esse mar já não surpreendia as rochas, mas estas, apesar de tudo, nada podiam fazer senão voltarem a ser acariciadas e abandonadas repetidas vezes. O som que este mar emitia já não era agradável, era apenas incomodativo. E era esse som que se tornava mais intenso à medida que eu olhava e fixava as estrelas minúsculas e frágeis daquele céu cor de alcatrão. Compactuando com a repetição do som, o volume aumentava aos solavancos. Quando o barulho era já quase insuportável o meu telemóvel tocou, impedindo-me de ver as estrelas a serem engolidas pelo negro do céu e hipnotizadas pelo som repetitivo daquele mar imenso e intenso, mas vazio de esperanças (pelo menos as minhas nele tinham desaparecido). Eras tu. Querias saber quando voltava para estarmos juntos. (Pelo menos aquele mar já não me parecia mentir). Atirei o telemóvel para o lado e obriguei-me a dormir enquanto ecoava na minha cabeça o som repetitivo e estranhamente incomodativo do mar.
Nunca mais voltámos a estar juntos.
*
Chegou a um ponto em que, quanto mais respiravas, menos eu bebia as tuas palavras. E há de chegar a altura em que, após ressaca, o bêbedo começa a ter novamente a sua total capacidade de raciocínio.
mushroom’zeni
(Início: 10.Novembro.2009;
Fim: 20.Novembro.2009)
A vida não é eterna, mas tu és
O que mais custa aprender é que a vida não é eterna, as lições são finitas e o tempo é escasso. E passamos a vida toda a tentar aprender a lidar o melhor possível com estes factos, quando sabemos que é impossível tirar nota máxima neste teste.
Não Desapareceste
És prova de que um simples passo pode decidir o futuro de muita gente. Algo aparentemente inocente pode desfazer a vida de muitas pessoas. Um gesto pode mudar o rumo de meio mundo (ou de mundo e meio, quando a globalização chegar a tanto). Um salto pode ser o salto da tua vida ou pode ser um salto para o abismo escuro e espinhoso.
No entanto, também és prova que não existe vida eterna, mas que, apesar de tudo, a memória pode perdurar até a eternidade se finar. E é só quando a eternidade se finar que o brilho do teu sorriso vai morrer com ela. Só quando ela se retirar é que os teus passos vão parar de ecoar. Só quando já não houver eternidade é que a serenidade dos teus olhos se vai tornar demasiado calma até estagnar mortificada. E vai ser só quando eu caminhar invariavelmente para o único sítio de onde nunca vou conseguir sair, é que os teus caracóis vão parar de se enrolar nos meus dedos para voltarem, tímidos, a enrolar para perto da tua nuca.
Infelizmente abusas da palavra ‘saudade’. Não me lembro de outra vez onde esta palavra me fizesse tanta companhia e emoldurasse tanto os meus passos, cercando-os e apertando-os, como agora. É ela que me espreme até saírem lágrimas e mais lágrimas; começam tão quentes que queimam a minha cara e a secam de tão salgadas que são, até passarem a ser tão sem sabor e gélidas que marcam quase tanto como as memórias de tenho de ti.
Confesso agora que te enganei quando te dizia, na brincadeira, que ‘não és assim tão grande’. És muito grande! És assim tão grande principalmente porque nunca te chegaste a aperceber do teu real tamanho. E acredita que quem ficou a dever alguma coisa não foste tu, foram os outros. O que ficou por pagar foram migalhas. No entanto, o que deixaste foram, para além de toneladas de saudade, barras de ouro a quem as soube aproveitar. (Eu teria pago bem mais por ti!...)
Serás, para sempre, braço da minha balança invertida. Serás, para sempre, família que escolhi. Serás, para sempre, parte da minha vida. Terás, para sempre, não só um espaço no meu coração mas em todo e qualquer órgão do meu pequeno corpo (conquistaste-os a todos sendo apenas tu próprio). Carregar-te-ei para onde quer que vá. Vais estar sempre comigo, até porque esse é o teu lugar desde que te tornaste na pessoa especial que és para mim.
Relembro, mais uma vez, quanto te ouvia dizer ‘adoro-te priminha’…
- Adoro-te priminho!
(Para Sempre!)
Inez – Priminha de Ruben
15. Novembro. 2009

