quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Bilhete de partida. Destino: 2012

Toda a gente fala que para haver uma real evolução tem que se olhar para o futuro. Que só uma corrida fatigante e desalmada em direcção a um objectivo definido no desconhecido pode criar o divertimento oportuno capaz de abrir uma grande porta no futuro.

Pois eu quero começar a correr já!

Estou farta de olhar para as portas do passado e esperar que elas se voltem a abrir. Estou farta de correr novamente para oportunidades que já vivi e já deram errado, e a única coisa que as coloca novamente na mira do meu futuro é o facto de ainda haver uma impotente e misera esperança que possam dar certo. (Tudo isto seja, talvez, pela minha vontade de provar a mim mesma que não perdi tempo naquelas tentativas passadas…).

Verdade seja dita que eu não costumo remoer nos erros dos outros, mas nos meus… - como diria a minha avó, ‘Deus nos livre’ (e se cada vez que ela repetisse isso desse resultado esperado já não haveria catástrofes naturais nem falta de dinheiro para ninguém…). Tenho uma tendência quase doentia de meter os meus erros como uma imaculada colecção no meu museu. Isto para que saiba sempre todos os passos mal dados em que apostei e repense constante e incessantemente em razões que justificassem tão infantil escolha. (Há quem lhe chame masoquismo, disseram-me um dia).

Estou pronta agora para declarar que me senti obrigada a repensar na minha maneira de viver as coisas passadas assim que notei que uma das portas que eu mais esperava que voltasse a abrir fechou completamente. Declaro também que nunca esteve realmente aberta. Esteve sempre meio aberta meio fechada. Na realidade aquela porta estava sempre meio aberta para que se visse o que estava lá dentro e se desejasse que não estivesse sempre meio fechada o suficiente para que nenhum corpo pudesse entrar (pelo menos o meu, mas normalmente existem mais portas para se ter acesso ao mesmo).

Algumas portas do passado voltaram a abrir.

Algumas portas eu já voltei a fechar.

E agora chega o momento em que deixo de ter medo de abrir novas portas que nunca conheci. O momento em que deixo de ter medo do modernismo que é atirar-me de cabeça para colorido desconhecido do futuro deixando para trás o poeirento passado que conheço tão bem que esqueço que é escuro e que as cores que vejo são as que eu sei que outrora elas foram, são parte da minha memória visual tão revisitada.

Pena é que, para apostar assim, eu tenha que me desligar de memórias, de papeis rabiscados ao som de uma canção, de noites de chuva, de sorrisos, de sonhos, de lágrimas que um dia caíram no mesmo sentido ainda que em localizações geográficas diametralmente opostas, de mim de franja e cabelo liso, de mim. Ou do que eu achava que eu era.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Chamo-lhe Segredo

Fica aqui um segredo (e chamo lhe segredo porque não me parece que alguma vez diga a quem diz respeito): as coisas não são quase nunca como se dizem, ou porque se dizem com a certeza que são verdade e depois as circunstâncias mudam, ou porque se dizem sabendo que não são verdade mas que será melhor ouvi-las assim. Mas sentem-se sempre da mesma maneira. Porque custa sempre dizer uma dessas “verdades” quando está por trás outra questão que te leva a querer evitar dizer mais verdades do que aqueles que queres que oiçam.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Excremento

Há dias em que parece que a única coisa que te apetece é deitar tudo cá para fora, falar, dizer mal, chorar, arrotar emoções, vomitar ódios e escarrar maus-amores. Todo o excremento acumulado por vivências e sentimentos passados é insensatamente empurrado para aquele grito.

Esquecemos que de nada isso serve; apercebemo-nos que nada nos vale gritar quando nem o coração ouve nem o cérebro pára de pensar.

Somos seres mesmo estranhos, nós, humanos.

domingo, 3 de julho de 2011

São coisas

O quanto eu gostava de dizer que aquela lágrima será a última. (E volto a pedir o mesmo desejo na próxima lágrima, e na próxima e na próxima...).

É engraçado como o Universo parece que nos dá sempre alguns sinais mas somos sempre demasiado humanos - e com isto quero dizer burros e cegos! - para entender o que, passado um grande murro na barriga, não podemos negar (ou dois, ou três, ou quatro… ou quantos forem necessários). Para mim foi daquela vez em que do nada te vejo tão perto e tão longe. Num minuto te vejo apenas duas linhas de comboios à minha frente, aceno, chega o teu comboio, entras, o teu comboio parte, entretanto o meu chegou, corro até ao mesmo sitio onde tu estavas para entrar no meu comboio que parte na linha ao lado mas exactamente para o lado contrário. Tudo o que o universo condensou num minuto eu demorei muitos mais a engolir.

E sabes que mais? As viagens de comboio agora já não me parecem tão longas.

domingo, 16 de janeiro de 2011

Que (a)deus?

Que deus é este que tanto falam e idolatram, que 3 dias depois voltou à Terra, para mais tarde assinar sem misericórdia uma sentença de morte a uma criança de 20 anos?

"Se soubessem o que sinto desde mundo, não veriam mais do que ódio, não veriam mais do que rancor, não veriam mais do que uma grande e marcada desilusão. Desilusão por saber que dei de tudo; e quando dava 10 de mim me era retirado 20. Foi assim que continuei invariavelmente a caminhar para um abismo que nunca imaginei tão escuro….

Sorte daqueles que nasceram em berço de ouro, que não sabem o que lhes é ser retirado nada e não sabem o que lhes é ser retirado tudo. Sorte daqueles que não viram pessoas a morrer ao colo para depois ter, nesse mesmo colo, um papel escrito com uma espécie de passaporte de visita aos há muito desaparecidos. Uma visita sem data marcada e sem regresso.

Mas datas definem-se quando se quer (e enquanto ainda se pode)."

Cancerígenos pensamentos que consomem a alma, enquanto o corpo se autodestrói sem perguntar se se quer sacrificar por Aquele que nunca experimentou o sabor amargo da mortalidade humana.

E ainda há quem diga de boca cheia que é justo… Que (a)deus?


quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Balança Comigo

Sinto que tenho o peso da vida de outrem numa mão e a verdade da minha vida noutra. Toda essa balança desproporcionada está a ceder e eu confesso que não sei o que faça com ela ou para que lado ela vai tender. Se tiver realmente ao meu alcance mudar o que tu queres tomar como teu, sendo que eu sei o que está em jogo, então continuarei na mesma incerteza de não saber o que fazer. Não quero condenar nada, mas os pesadelos assolam-me tentando espicaçar-me a escolher.

- Por favor, tira a corda que teimas em colocar ao pescoço. Ainda que não te importes com isso, ela está a começar a apertar-te e já me estrangula a mim também.

- Por favor, não voltes a apontar essa arma que tanto atira na tua direcção como na minha.

- Por favor, não voltes a deixar de respirar por muito tempo que me sinto a perder o folgo contigo.

- Por favor, não te voltes.

Não te voltes para que não vejas a minha cara de terror enquanto avanças dizendo que pelo menos esta será a tua escolha (nem que seja a última). Não me digas que agora te posso chamar mais vezes egoísta porque até não deixo de ter razão. Contraria-me! Contraria-me como fazes sempre!... Contraria todas as vezes que precisares, mas apenas não numa: não o faças!

É que eu acho que há algo que ainda não entendeste: os teus problemas já não te pertencem tão só e exclusivamente a ti e a tua sombra tem traços que já são mais meus do que teus. Tu cais e vou contigo; e, pelo contrário, se te elevares um bocado, arrastas-me contigo para uma vertical que todos anseiam. E eu não entendo porque chamam a isto amor quando dizem que só se pode amar uma pessoa verdadeiramente. Eu amo muitas. Amo muitas e muita coisa e se não é a isso que chamam amor, eu trato-o assim. Se tiver, para isso, de o identificar com maiúscula, até com nome próprio eu o trato que não quero ofender ninguém. (Se podem chamar Gisela a uma carrinha, eu posso chamar a um sentimento Amor, seja lá o que ele for). Assim sendo, Amor fez com que eu te dissesse um dia:

- Não o faças!



*

Não me vou desculpar se te deixar cair. (Mas a balança pesa demais.)

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

E se não houver Cavalo de Tróia?

Chove lá fora e ainda a água não molhou a terra e já os meus pensamentos divagam. Talvez a chuva não esteja para lá da minha porta, talvez haja uma tempestade mais perto de mim do que a minha mão da minha testa. (E dói-me a cabeça, dói-me tanto a cabeça).

Relembro (…)

Relembro agora as coisas que nunca tive e chove.

Relembro agora as coisas que tive e faz saudade.

(Que saudade!...).

Saudade da altura em que sentia que te podia dizer qualquer coisa; saudade do dia em que sentia que podia chorar ao teu lado e explicar-te o que estava a acontecer comigo, que houve um dia em que, sentada ao colo dele lhe puxei um caracol da cabeça e lhe disse que o adorava antes que o caracol voltasse a enrolar para a sua nuca. E ele, nesse dia como em tantos outros, retribuiu com um olhar luminoso e um sorriso que parava toda e qualquer chuva. Agora são só lembranças daquelas que não tento esquecer por serem tão belas de serem relembradas, mas tão cruéis por não poderem ser revividas.

Mãe, tenho medo que chova e tenho medo que faça sol. Agora tenho medo que faça sol porque já sei que o sol não brilha para sempre e que ele se apaga e fica enublado e chove e eclipsa. Mãe, e se não houver Cavalo de Tróia que tape o Sol mal eu adormeça? E se eu tiver medo de abrir a porta ao Cavalo por o achar tão belo, por ter medo de o perder ou dele se tornar outra coisa completamente diferente? Mãe, e se não houver Cavalo de Tróia e eu agora, com medo, deixar o cavalo fugir?


*

‘Where did I go wrong, I lost a friend
Somewhere along in the bitterness
I would have stayed up with you all night
Had I known how to save a life’
- The Fray